Todos os Belos Cavalos

Todos os Belos Cavalos

A força dos livros de Cormac McCarthy está na sua prosa. Os diálogos e a interação entre os seus personagens são o chamariz ao leitor que procura algo além de uma história bem contada. Todos os Belos Cavalos não foge desse regulamento ao tratar dos percalços enfrentados pelo jovem John Grady em seu êxodo do interior texano rumo às duras terras mexicanas com propósitos de manutenção de uma vida em meio à cavalos e labores rancheiros.

John, um simpático protagonista, que poderia ser considerado um homem bom em todos os sentidos desse adjetivo, é um rapaz muito atípico pela maturidade que detém. Todas suas ações são movidas pela integridade, suscitando respeito a quem passa a conhecê-lo. Mas essa ânsia em fazer o correto o leva diretamente ao infortúnio anunciado. Sempre um passo à frente das circunstâncias, convence o leitor de que as ameaças não o submeterão, inclusive no quarto ato quando a prudência presente em toda a obra dá lugar à leviandade e medidas desesperadas começam a ser empregadas.

Nos mesmos moldes de John Grady, os outros personagens também são representados como cowboys taciturnos ou homens e mulheres misteriosos, de poucas palavras, endurecidos pelas experiências que o tempo traz, resolutos no que almejam, atribuindo profundidade ao enredo.

Os diálogos são muitos, porém a troca de palavras é extremamente minimalista, revelando menos do que preferiria o leitor. Durante as econômicas conversas a enxurrada de respostas curtas ocasionalmente torna difícil identificar qual dos interlocutores tem a vez. A proposta do autor é entregar um texto fluído, daí vêm os parágrafos ou frases extensas narrados num único suspiro, repletos de conjunções aditivas e omissos em vírgulas, proporcionando equivalência ao fluxo de consciência.

Em contrapartida, o ponto mais elevado do livro está em um ponderoso discurso de uma das personagens que disserta sobre os eventos da Revolução Mexicana enquanto permeia o relato com ficção histórica e ainda comove intensamente ao versar acerca do que de fato as pessoas vítimas de desfiguração são obrigadas a encarar em suas vidas. O que elas serão obrigadas a suportar, a vergonha, suas ruminações de inferioridade e sobretudo a dor que a pena alheia é capaz de infligir a esses indivíduos. A conclusão é de que aqueles submetidos à tais provações são dignos de um reconhecimento legítimo.

Os cavalos do título, constantemente referidos como criaturas majestosas, ao mesmo tempo em que representam os pretextos motivadores para os acontecimentos no romance, exercem papel meramente simbólico, alheios a tudo o que acontece em volta deles, como se decidissem por aquiescência que os humanos devessem resolver seus próprios conflitos.

O maior problema em Todos os Belos Cavalos está na escolha arbitrária da figura antagonista à John Grady. Alfonsa, a avó de sua amada Alejandra, é neutra. Nem má, nem boa. Só defende cegamente seus valores antiquados. Sua imensa explanação não justificou por certo, pelo menos não de maneira convincente, a razão pela qual sua neta não pode viver um romance com o jovem rapaz. E esse grande confronto do livro se baseia tão-somente em um mal entendido, em uma falsa acusação.

Cormac McCarthy criou uma bela aventura, sofrida e melancólica, que perde a magia quando se nota alguns elementos de coincidência oportuna ou cenas genéricas para criar sentimentalismo. O toque especial do autor é melhor sentido nos diálogos e quando leva à tona introspecção. Nem de longe um de seus melhores trabalhos.

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