Amanhã

Amanhã

Em Amanhã, o célebre Joseph Conrad traz à tona esperanças dissolvidas. Nesta curta história do início do século passado, talvez uma das raras conradianas que se passa inteiramente em terra firme e ainda por cima distante da temática aventureira, acompanhamos o capitão aposentado e viúvo, Hagberd, cujo otimismo acentuado ultrapassa a insensatez, aguardando todos os dias pelo amanhã, data incontestável da chegada de seu filho pródigo, Harry, que há muito partiu ao mar por motivos que o capitão parece ter voluntariamente esquecido.

Como no teatro, a história transcorre em apenas um palco. O cenário estático é o quintal adjunto entre as duas casas do velho Hagberd, separadas por uma cerca. Em uma das casas vivem Bessie e seu pai, obeso, vítima de cegueira e letargia. Neste palco se dão as conversas entre o capitão e a jovem moça. As trocas de amenidades são permeadas com perspectivas de um futuro mais generoso, quando retornar ao seu pai, o romanesco Harry Hagberd. O regresso tão esperado acarretará no casamento de Bessie com o herdeiro e as posses serão transferidas ao casal. Portanto, Hagberd sênior organiza seu restante de vida e rotina de forma a estar preparado para o reencontro.

A verdade é que, já tomado pelo delírio, o capitão Hagberd se autoengana e ilude terceiros quanto ao retorno de seu filho. A repetição sistemática feita por ele todos os dias da palavra “amanhã”, a qual intitula a novela, é um artifício do autor para trazer à superfície a loucura do personagem, sinalizar que a sanidade do velho pode estar comprometida. Sua fé é inabalável, mas quando tem a oportunidade de saber as notícias de Harry, prefere não ouvir, com medo inconsciente de ter as expectativas rechaçadas por uma suposta informação negativa.

A chegada de Harry é fortuita e ausente de qualquer pompa, aliás é conturbada e recebida com descrença. Seu próprio pai não assimila que aquele indivíduo prepotente que do nada emerge, é seu herdeiro e o toma por um falsário. O jovem se mostra o oposto do que o capitão anunciava. De alma errante, não possui raízes em lugar algum ou a alguém, nenhum apego ao dinheiro ou planos para o futuro. Harry se declara avesso a passar o resto da vida naquela pequena cidade, e de forma alguma constituirá casamento.

A vizinha Bessie Carvil, recusada pelo jovem Hagberd, é uma donzela amável que vive para cuidar do amargurado pai. Sua imagem afável a simboliza como uma verdadeira vítima. Ela é inocente, virtuosa e tem a sexualidade reprimida, pois se encabula ao simples piscar brincalhão do capitão Hagberd.

Apesar de não acreditar plenamente no que dizia o velho Hagberd, ao longo dos anos confiou que esse encontro com seu prometido seria a virada para uma realidade menos sofrida. Não sabemos sua idade e nem desde quando carrega o calvário de ter que cuidar com muito afinco das necessidades mesquinhas de seu pai como uma babá vinte e quatro horas por dia, só sabemos que é tempo suficiente para alguém perder a vontade em continuar existindo.

A moça não tem trégua, é alvejada pelas três partes: seu pai, Hagberd sênior e Hagberd júnior. Ao se tornar cônscia das motivações de Harry, Bessie se transforma em nada mais que um interlocutor irrelevante, um fantoche que expele somente interjeições para soltar a língua do jovem boêmio, e disponibilizar ao leitor a compreensão da real personalidade de Harry. Portanto, no final das contas ela é destratada até mesmo pelo autor, que decidiu apequená-la.

Os dois jovens sofrem do mesmo dilema: uma figura paterna dependente. A diferença é que o rapaz teve a audácia de no passado abandonar tudo. Porém, sempre foi muito mais fácil para o homem partir sozinho no mundo devido aos preceitos sociais e aos direitos de gêneros que nunca foram igualitários, ainda mais na época em que se passa o livro. A pobre coitada não teria a mínima chance de sobreviver por sua conta, com ou sem dinheiro.

O ensejo é de partir o coração, quando a senhorita Carvil praticamente implora à Harry para levá-la consigo, e a resposta que tem é o som dele se afastando para nunca mais voltar. A ironia, a solução do desalento de Bessi, seria se Hagberd deserdasse Harry e concedesse a fortuna para a moça, assim como declarou fazer o ex-capitão, caso se enganasse quanto ao caráter de seu filho.

Joseph Conrad costurou os personagens de certa forma que estivessem atados um ao outro. Cada um tem seu destino confiado a outrem: o Sr. Carvil aos cuidados de sua filha; Bessie ao seu senhorio e provável futuro sogro, Sr. Hagberd; e este último ao regresso de seu estimado filho. Harry pode ser independente de outro ser humano, mas é refém de seu próprio espírito desregrado.

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