O Poço e o Pêndulo

O Poço e o Pêndulo

O gênero terror psicológico é representado na coleção Folha Inglês com Clássicos da Literatura pelo conto O Poço e o Pêndulo, de Edgar Alan Poe. Uma boa escolha, o americano é considerado nada menos que o pai do horror.

Narrativas em primeira pessoa nos contos de mistérios causam facilmente sintonia como se nós mesmos estivéssemos em tais situações. E alguns simbolismos foram meticulosamente inseridos na estrutura da estória para evocar aflições ao leitor. Vide a epígrafe escolhida, concebida em um idioma já há muito esquecido, suscitando obscuridade logo no princípio.

Na pele de um anônimo, situamo-nos em seu julgamento pelo que aparenta ser a Inquisição Espanhola. O ambiente é desconhecido, assim como o motivo pelo qual o indivíduo ali se encontra. Para o próprio acusado a natureza do crime ou as circunstâncias de sua prisão são perguntas sem respostas. Talvez ele seja um perpetrador de heresias.

Para tornar as coisas mais confusas o sujeito está delirante, oscila entre diferentes estados de consciência. A alucinação deste protagonista-narrador amplia ainda mais a lacuna na percepção do leitor, semelhante um pesadelo. O que de certa forma gera estranheza: alguém conseguir relatar sobre seu estado de inconsciência. Parece inverossímil.

Nos lapsos de sanidade ele consegue observar aqueles que o cercam. Descreve os juízes como figuras humanas impassíveis, duras, detentoras de uma imagem grotesca. Artifício de Poe para denotar mais inquietação.

Sentenciado à perecer em um poço onde a escuridão governa absoluta, o homem se vê confiado à própria sorte e prontamente se põe em marcha para mensurar o recinto. A tentativa da assimilação do espaço se mostra equivocada, e junto ao negrume opressor do calabouço, fundamenta-se o alicerce sobre o qual o terror psicológico é instaurado.

O primeiro risco de morte com o qual se depara é o abismo profundo que por uma eventualidade sua queda ali foi evitada. Entretanto, seria um fim muito mais agradável do que aquilo que lhe aguardava. Ao despertar do tombo salvador, viu-se deitado, atado por amarras, e na direção do teto, um pêndulo com uma lâmina balançava inexoralvemente. A cada ciclo pendular a lâmina se aproxima mais verticalmente, devora centímetros abaixo, cada centímetro representando uma parcela do restante de vida do infeliz.

O pêndulo parece descender não pela força gravitacional, mas sim, pelo peso do tempo. A tortura da situação consiste na apreensão pelo arrastar das horas até que a arma trará fim à sua vítima. O prenúncio de tamanha violência é o tormento, e essa ideia devastadora se agrava pelo rastejar do tempo. Dias correm, ou minutos, pois o discernimento do homem está ofuscado.

Nesta altura, outro elemento aflitivo entra em cena. Ratos vorazes por um fragmento de alimento escalam o abismo atraídos pela expectativa de carne fresca e pelo odor do medo. É o toque especial que funde o terror psicológico ao asco repugnante, produzindo mais urgência à liberdade do personagem.

Digno de condecoração pela sagacidade em uma circunstância tão desfavorável, o desafortunado se utiliza dos roedores como ferramentas para danificar as amarras e o fio da lâmina do pêndulo que traria sua morte certa acaba por romper de vez seus grilhões.

Porém sua desventura homérica não se encerra por aí. Para a próxima e derradeira armadilha sádica dos inquisidores não há a mínima chance de fuga. Através de um mecanismo, as paredes do cárcere tomam vida e se deslocam, indo de encontro umas às outras. Como se não bastasse há também fogo envolvido. Ao condenado só lhe resta escolher a menos terrível das desgraças: esmagamento, incineração ou se jogar no abismo — aquele evitado em um estágio anterior.

O suicídio (lê-se pular no poço) seria a alternativa mais piedosa, não fosse o salvamento milagroso. Edgar Alan Poe agracia seu personagem com a manutenção da vida graças à invasão pontual do histórico general francês LaSalle, decidido a findar com as obras impiedosas dessa seita religiosa.

O autor descaradamente se serviu de um subterfúgio alá Deus Ex Machina. É um final improvável, até mesmo onírico, uma vez que não havia referência alguma ao general no curso do livro. Este fim subtrai parte do brilho da estória, mas não chega a sabotar o mérito do conto.

A sensação de esperança é extensivamente trabalhada ao longo dos percalços pelos quais o protagonista se depara. “Haverá salvação!”, é o que se reflete durante a leitura. No início, a afirmação do narrador de que está a escrever aquele relato em uma folha de papel, entrega que ele vive e que conseguiu se safar da terrível provação que está prestes a nos contar.

O fato de já sabermos do princípio que o prisioneiro não será executado, é completamente obliterado pela narrativa sedutora do autor. O suspense foi magistralmente consolidado na ambientação, no cenário, no contexto histórico e nos ingredientes de horror.

Nem mesmo foi necessário um desenvolvimento mais elaborado das motivações antagonistas para o enredo. O trabalho feito se resume meramente a citar por alto as repugnâncias causadas pela Inquisição no decorrer do conto, preparando o leitor à que o personagem estaria sujeito. Poe não precisou investir na construção do inimigo, a vilania dos algozes se vendeu sozinha. Está subentendido que apenas a cega doutrinação religiosa bastou para justificar esse espetáculo hediondo.

Mas o autor se mantém neutro, não reserva um instante para avaliar os atos. Preocupa-se somente em compor sua narrativa arrebatadora. O compromisso em julgar a moral cai nas mãos do leitor.

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10 comentários sobre “O Poço e o Pêndulo

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