Stempenyu: Um Romance Judaico

Stempenyu: Um Romance Judaico

Stempenyu: Um Romance Judaico, como o título entrega, é uma novela romântica de Sholem Aleichem que nos transporta para os vilarejos do século XIX no leste europeu. Vilarejos que se associam por professarem os valores da religião judaica.

A premissa do enredo simples não oferece nada de inovador: uma bela jovem se encanta pelo magnetismo de um artista talentosíssimo e está disposta a renunciar à comodidade do casamento com seu marido insípido. Tal imprudência configura um perigo desvairado devido à doutrina austera que o Judaísmo adota quanto ao matrimônio. 

Caracterizado como um romance de triângulo amoroso, a tríade é composta por Stempenyu, o violinista virtuoso; sua esposa Freidel; e a cobiçada Rochalle.

O dom de Stempenyu para a música é prestigiado por onde passa e sua performance é muito aguardada aonde está destinado a se apresentar. A força de seu violino é transcendental, aproxima o mundo dos homens ao paraíso dos anjos. O autor, Sholem Aleichem, exagera a potência das habilidades do músico para tornar crível o efeito que ele causa nas senhoritas e até mesmo nas senhoras. Sua melodia é capaz de desonrar as mulheres. Nos dias de hoje, poderia ser considerado um rock star.

Mas o homem é um libertino, um mundano que desfruta de seu poder para acalmar os desejos carnais. Totalmente alienado às convenções sociais, seus únicos interesses são música e esbórnia.

Como uma tremenda ironia, se acorrenta à uma mulher, Freidel, que destitui do amor para se importar apenas com os lucros de seu marido. A compulsão de Freidel — mais pragmática para o mundo em que vivem — torna os dois incompatíveis. Seus interesses não se correlacionam.

Para a esposa, a usura é o refugo ao amor não correspondido por Stempenyu. E essa figura tão marcante, implacável na forma como reprime o bon vivant, acaba por incitar uma espécie de emasculação do seu marido.

Eis que numa cerimônia onde tocava, o fausto instrumentista acaba se apaixonando profundamente por Rochalle, que para sua infelicidade já é compromissada. Stempenyu faz a corte à Rochalle pelo som de seu violino e insistência impulsiva.

Ao contrário de sua habilidade com o instrumento, ele é pouco articulado na oratório em presença de uma mulher, dificultando ainda mais seu empreendimento.

Pela falta de um cônjuge mais presente que lhe conceda mais atenção e devotamento, e pelo sufocamento benevolente vindo dos sogros, Rochalle também cai de amores por seu pretendente. A intensificação dessa paixão despertada é construída na narrativa pelo relato da experiência de vida de uma amiga muito próxima à jovem, que sofreu devido ao abandono de seu amado, além do martírio que foi seu casamento com um homem não desejado.

A impressão que fica é que a aflição de Rochalle poderia ser facilmente extinguida com uma simples conversa franca com seu esposo e os pais dele. E é exatamente isso o que acontece, por mais frustrante que isso soe devido à obviedade.

Com a família ajustada, a moça encontra a alegria e progride em sua vida, superando a paixão pelo músico. Já Stempenyu recebe o golpe violento presumindo ter perdido o amor de sua vida e sucumbe à opressão de sua esposa avarenta. Até mesmo sua música é afetada por essa devastação, e não seria nunca mais a mesma.

A crítica social nesta obra de Sholem Aleichem está submersa, mas está presente ao mostrar a ascensão da mulher que segue os princípios do povo judaico e na queda daquele que negligencia isso. O autor, de certa forma, com perícia, posiciona o seu leitor para inconscientemente rejeitar Stempenyu em favor de Rochalle.

Ficando ao lado do marido, Rochalle não é mais desvirtuada e cumpre os preceitos do Judaísmo. Essa escolha denota a mensagem de que o amor também pode ser encontrado dentro das tradições desta religião.

O encerramento é satisfatório para a jovem que se conscientiza, mas é amargo para Stempenyu. Ele que parece não se esforçar para seguir os valores, acaba padecendo. Ao final, não é punido, porém é deliberadamente desvanecido.

Stempenyu: Um Romance Judaico é uma estória que perscruta em sua maior parte a figura do artista enquanto esmiúça o conflito daquele que transgride dogmas religiosos arraigados em seu íntimo. O drama por vezes recebe o alívio advindo da sátira, ou até mesmo do humor caricato, como personagens que seguem o estereótipo do judeu que ama o dinheiro acima de tudo.

A narrativa não avança além da explanação de uma paixão movida simplesmente pela idolatria da persona, que representa a fuga da realidade opressiva que Rochalle vivia. Stempenyu seria seu salvador. A paixão é sintetizada nesse escape. Já os diálogos não instigam convencimento, pois soam artificiais demais.

A despeito disso, é uma leitura válida para assimilar os costumes de um povo. Entender no que se fiam, quais valores milenares conduzem as pulsões dessa comunidade que foi tão fatigada no curso da História e se recusa a abnegar de sua identidade.

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5 comentários sobre “Stempenyu: Um Romance Judaico

  1. Ola Brunno, parabéns pelo post e pelo blog são de excelente qualidade, todos os post. Gostaria de te agradecer por email mas não achei os contatos.
    Quero dizer muito obrigado por ser um seguidor fiel que sempre dá curtidas nos meus últimos post do blog. Sou um iniciante amador e sempre é difícil conseguir um curtida porem você facilito as coisas apenas sendo um, me dando animo.
    Obs: gostaria de te seguir no seu blog todavia não acho opção de seguir. Se não tem devia colocar. Se tem me mostre

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Adragon, agradeço muito pela força.
      Também gosto de visitar o seu blog, pois há bastante conteúdo que é de meu interesse. Continue publicando!
      Para seguir os blogs, basta entrar nas páginas de um determinado blog e conforme você vai descendo a barra de rolagem aparecerá um pequeno botão no canto direito inferior escrito “Seguir”, então é só clicar nele.
      Seguir outros blogs é uma ótima forma de aquirir novos seguidores.
      Um abraço!

      Curtido por 1 pessoa

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