Pastoral Americana

Pastoral Americana

Apesar de não ser a melhor obra de Philip Roth, Pastoral Americana é a mais famosa, sobretudo por recompensá-lo com o Pulitzer de 1998. O título compõe a Trilogia Americana do autor, e também como os demais é narrada pelo seu alter ego, Nathan Zuckerman.

Devido à uma sequência de eventos, Zuckerman decide desconstruir a vida de seu grande ídolo dos tempos de juventude após tomar conhecimento da morte dele. Em uma reunião comemorativa de vários anos da formatura com a turma da escola, descobre que seu herói vivenciou dissabores dolorosos antes de falecer, ao contrário do que as pessoas poderiam pensar, pois desde o nascimento a vida sorriu à Seymour Levov — carinhosamente apelidado por todos de “Sueco” — e o abençoou com as mais apreciáveis qualidades.

De súbito, a narrativa em primeira pessoa de Nathan Zuckerman, que perdurou por quase 100 páginas, dá lugar, para nunca mais retornar, à história do Sueco Levov em terceira pessoa. Em um relato avesso a linearidade, constatamos a queda desse homem após os ataques terroristas e posterior fuga perpetuados por sua querida filha adolescente.

Sueco obteve essa alcunha devido a beleza de natureza nórdica, mas ele é a personificação da fisiologia e dos valores norte-americanos: homem branco-loiro-alto; excelente nos esportes; patriota; ama sua filha, esposa e pais; e toca o negócio da família. Descendente de imigrantes que chegaram no país com nada, não herdou a abastança a qual usufrui, se empenhou com bastante dedicação para conseguir.

Sua fisionomia, compleição física e acima de tudo talento desportivo conferiram a ele imunidade aos percalços e preconceitos que os judeus costumam passar nos EUA, principalmente na infância e adolescência. Foi facilmente aceito pela América branca, blindando-se da complexão judia. Em vista disso, enchia os olhos dos garotos na escola do bairro judeu que o estimavam como a um semideus. Todos queriam ser ele.

Além do sucesso em tudo que fazia, Seymour é o alicerce da família, o baluarte moral. Com tolerância e benevolência infindáveis, é o filho, pai e marido perfeito. Sonhava em viver uma vida idílica com as pessoas que ama até que seus planos foram interrompidos no dia em que sua filha Merry decidiu explodir uma bomba para protestar contra a Guerra do Vietnã ao fim dos anos 1960, prática que angariava cada vez mais adeptos entre os jovens radicais da época.

Merry Levov sempre foi uma criança de extremos que se emocionava profundamente com certos episódios que presenciava e não sabia lidar com algo tão intenso, como os sacrifícios televisionados de autoimolação dos monges tibetanos em protesto à ocupação chinesa. Para ela, não havia uma válvula de escape. Soma-se a isso sua grave gagueira tão citada no livro no intuito de justificar o início do que geraria a catarse de sua metamorfose em um ser indecoroso.

Com a Guerra do Vietnã, assim como tantos outros adolescentes, ela se sensibiliza contra as atrocidades desempenhadas pelo exército americano e inicia o flerte com qualquer movimento revolucionário ou de contracultura. Se afasta gradativamente de seus pais, enquanto esses, liberais e pacientes, se portam impotentes, estoicos.

Frustrada por não se fazer ouvir, manifesta-se contra a guerra ao explodir uma bomba no mercadinho do bairro que acabou matando um médico querido na região, e foge para não mais voltar.

A garota é combativa, rebelde, contudo é hipócrita, visto que se utilizou dos meios aos quais repreendia veementemente apenas para fazer valer seu argumento.

Anos mais tarde, Seymour consegue achar sua filha já adulta, entretanto seria melhor não a ter encontrado. Vivendo em um estado deplorável de subnutrição e falta de asseio auto impostos a moça está apenas sobrevivendo enquanto a morte não chega para a cobrança.

A religiosidade teve importância relevante na vida de Merry, oscilando entre catolicismo e judaísmo quando criança, culminando no jainismo em sua vida adulta. Essa religião prega contrariedade a qualquer forma de violência a qualquer ser vivo, inclusive àqueles que usamos em nossa alimentação.

Merry é uma alma de urgências imoderadas, controversa em seus princípios. Antes, participava a fundo das células terroristas socialistas, depois se tornou pacifista, incapaz de fazer mal à uma simples bactéria, chegando ao ponto de utilizar a todo o tempo um lenço tampando suas vias aéreas na esperança de não poluir o ar em que os seres microscópios permeiam.

Seu pai ouve com excessivo pesar e choque sobre as perambulações da moça, sobre as formas de degradação a que esteve sujeita, em particular aos vários estupros que sofreu. Nessa narrativa experimentamos uma possível empatia por Merry, que cai por terra assim que ela mesma confessa ter matado mais 3 pessoas durante seu período de militância extremista contra a iniquidade do capitalismo.

Os impulsos de Merry a guiaram por caminhos condenáveis. A falta de uma bússola moral, um senso crítico, fizeram-na chegar ao jainismo, atingindo a degradação definitiva ao privar-se do consumismo e renunciar à sua existência. A partir desse ponto, o Sueco entendeu que ela estava comprometida em se extinguir. Nesse último contato entre eles, ele compreendeu que perdeu a filha para sempre. Desde a adolescência nunca mais a teve.

A infâmia da filha devastou ao longo dos anos seus pais Seymour e Dawn Levov e consequentemente o casamento deles. Dawn era capaz de externar seu sofrimento, enquanto o Sueco guarda o dele enterrado no coração para sofrer sozinho. Com o passar dos anos, para a mãe, a cirurgia plástica parece ter removido todo o passado nebuloso, ganhando um novo fôlego, renovando sua mente. Até se dando ao luxo de uma traição.

Seymour Levov será um refém eterno e se perguntará onde foi que errou na criação da filha. A história, o nome de sua família, foram maculados em um único instante, por isso tenta encontrar sentido nas ações da menina.

Períodos específicos da vida deles são esmiuçados pelo próprio Seymour para jogar uma luz e tentar explicar o inexplicável, ou apenas para senti-los uma vez mais.

O Sueco não consegue deixar de se culpar. A questão máxima que o livro traz é se ele é apenas uma vítima passiva da série de infortúnios ou se a permissividade, complacência e comportamento patriarcal na criação de sua filha, corroboraram de alguma forma indireta pelos acontecimentos trágicos. Será que o caráter radical da menina é o único em que se deve depositar a culpa?

Para Jerry Levov, caçula do Sueco, sua sobrinha era um verdadeiro monstro, e a letargia com a qual seu irmão a conduziu pela vida engendrou essas terríveis consequências. 

Nem o pai, a mãe, a esposa, nem muito menos o narrador Zuckerman, conseguiram ler o Sueco como fez Jerry. Para ele, Seymour faz o que faz, se porta com indulgência a todos, apenas pelas aparências. Para agradar. Assim como fez em toda sua vida, desde a infância participando e conquistando campeonatos para os times da escola nos vários esportes em que era a estrela; seguindo o ofício do pai; se alistando na Segunda Guerra. Uma vida destinada a corresponder.

Jerry é a voz que traz à tona a crua realidade. É ácido, impiedoso, porém verdadeiro. Oposto a pastoral presumida pelo Sueco, Jerry sabe que os EUA são um caos. Até mesmo o título do livro remete à ironia.

A obra é um estudo dos EUA entre as décadas de 1930 e 1970. Nesse intervalo, Philip Roth questiona se o Sonho Americano idealizado, se a pastoral, o ambiente ilusório de uma família funcional, realmente existiram. O próprio ascetismo em que Merry se encontra é a antítese absoluta do conforto da pastoral americana.

O que vemos é essa pastoral sucumbir e o Sonho se tornar Tragédia Americana. A queda da família tradicional e o declínio moral são o verdadeiro realismo americano. E Roth simboliza essa realidade no escárnio, na gargalhada vexatória da professora cética e progressista ao final do livro no jantar organizado pelo casal Levov no Dia de Ação de Graças, o mais americano de todos os feriados. Ela ri da decadência.

Outros personagens de destaque são os pais do Sueco. Lou Levov é a representação caricata do conservadorismo retrógrado. Um judeu tagarela que constantemente se perde em seu discurso e vaga por conjecturas que a todo o momento acabam na manifestação de seus preconceitos mais basilares. É a válvula de escape cômica. A contraposição de valores antigos com o mundo contemporâneo.

Já a mãe, Sylvia, é submissa, tomada de assomos nervosos, tragada pela personalidade fortíssima de seu marido.

A pesquisa em Pastoral Americana é um ponto a se enaltecer. Fabricação de luvas de couro femininas, criação de gado e concurso de miss América são temas destoantes entre si, no entanto o autor esmiúça os pormenores de todos eles com bastante propriedade. Ainda que sejam assuntos desinteressantes.

Aliás, a manutenção total da atenção do leitor é um pouco deficiente. Em salvos momentos que Roth tem sucesso, a narrativa retrocede ao passado para explanar sobre aquele acontecimento em questão, perdendo o foco e o entusiasmo adquirido.

O que não tira a excelência da obra. É um projeto complexo o que o autor se propõe. É a racionalização da cultura do pós-guerra americano. Do Pós-Guerra do Vietnã. Denso não somente em sua extensão, o livro é carregado de luto e o sentimento de impotência sobre como as tragédias se configuram. E elas vêm como um trem desenfreado. No meio desse turbilhão há o retrato de um homem em seu período pós-traumático.

Todavia deve-se ter cuidado com essa representação do Sueco contida no livro. Essa imagem é fruto da reinvenção do narrador Nathan Zuckerman. É a opinião do alter ego de Philip Roth tentando entender o que se passou na cabeça de seu herói de infância durante essa trajetória tão dura. Na narrativa imaginária de Zuckerman, ele tenta ordenar a vida de Seymour Levov, tendo total autonomia para moldá-la conforme queira.

O fato de ser uma ficção dentro de uma ficção causa estranhamento. Junta-se a isso o final inconclusivo, decepcionante e com muitas questões em aberto, o leitor ruminará frustrado as expectativas que foram criadas. As perguntas foram levantadas, o livro discorreu e remoeu os acontecimentos, e no final nada é esclarecido. Muito pelo contrário, o final reitera essas perguntas. Fica a sensação de que há alguma minúcia simbólica incutida no desfecho que justifique ou ao menos ligue os dois cenários narrativos, mas é uma busca vã.

E são essas conjecturas que dão magnitude ao livro. É uma obra muito complexa em sua interpretação. Muito rica para apenas uma análise. Tal complexidade pode trazer diferentes conclusões para diferentes leitores. É impossível decidir que se o Sueco tivesse feito algo diferente ou se tivesse um caráter oposto, ele conseguiria salvar sua filha. Não podemos prever as ações do outro. Não há como entendermos o próximo por completo. Sempre perguntaremos por qual motivo alguém fez isso ou aquilo. Essa é a mensagem mais importante em Pastoral Americana.

11 comentários sobre “Pastoral Americana

  1. Na minha fase adolescente devorador de livros, eu comecei a ler mas deixei de lado (um dos poucos livros q parei no início) o Complexo de Portnoy, ou era realmente chato, ou eu não tava preparado pro autor…. esse parece ser interessante, ou ao menos sua ótima resenha o deixou mais atrativo…. abraçs…..

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