O Oficial Prussiano

O Oficial Prussiano

Publicado em 1914, O Official Prussiano é uma curta história escrita pelo inglês D. H. Lawrence, que trata da relação unilateral homossexual e sádica entre um capitão do exército prussiano com o seu jovem ordenança.

Para a caracterização de seus dois únicos personagens, Lawrence se utiliza principalmente de descrições fisionômicas para atribuir-lhes personalidade, feitio e gênio, já logo em suas prévias apresentações.

Com o semblante rígio e impassível, o amargo capitão Hauptmann é um homem frio, impessoal e austero no que diz respeito os princípios militares. O aristocrata frustrado na carreira e no amor, desenvolve um desejo latente por um soldado que está sob suas ordens particulares. Ao resistir à essa paixão homoerótica em seu subconsciente, manifesta um confronto interno contra a lubricidade, enquanto aflora o confronto externo contra o objeto de seu afeto. Ao pobre rapaz destina-lhe ódio e agressividade.

A própria presença de seu ordenança irrita profundamente o capitão. Este, tenta punir, intimidar de toda forma concebível até quebrar o espírito do jovem. Com o tempo, o oficial se torna cada vez mais malicioso e cruel, atitudes que lhe conferiram a morte, resultado da ira possessa de seu criado.

Schöner representa o contrário de Hauptmann em vários aspectos. É boa praça, pleno de vivacidade juvenil e amante de uma moça a quem lhe escreve constantemente. Porém, perde sua graça natural de forma abrupta devido às intenções do oficial de tirar-lhe qualquer traço de liberdade e amor próprio. Perde sua inocência e alegria, tornando-se amargurado e remoído tanto quanto seu algoz.

A tensão entre os dois se torna intolerável para Schöner. O rancor lhe corrompe a identidade bondosa e a mente é fustigada pelo anseio de vingança até o ponto em que explode. Com a opressão chega até a decisão radical e o papel masoquista se inverte quando o rapaz parte às vias de fato.

O momento em que ambos consolidam a aversão um pelo é a cena dos chutes do capitão em seu criado. O ordenança se enxerga fisicamente humilhado e transgredido, análogo à um estupro. Com a dignidade violada, o ódio absoluto toma lugar, e a partir desse ponto de inflexão nada mais poderia ser feito para corrigir a mágoa. Não caberia mais qualquer espécie de reconciliação.

A repulsa mútua cria entre eles um certo grau de intimidade e Schöner se decide por não reportar suas máculas. Prefere que ninguém as veja. Mantém-se acanhado pelos limites de sua hierarquia militar. Opta por se controlar, pois sabe que faltam apenas dois meses para terminar o serviço no exército. Deseja apenas passar por essa provação. Ir na contra mão disso é sabotar o próprio futuro.

O capitão tem ciência da impotência de sua presa, um simples soldado raso de baixa classe, enquanto ele pertence a alta casta. A omissão do ordenança em protestar e se fazer ouvir é um tiro no pé porque ajuda o oficial ainda mais a se safar. Aqui está a crítica social de Lawrence sobre estar de mãos atadas aos abusos dos mais poderosos.

O oficial é prusso e o ordenança é bávaro. Como a história se passa entre o final do século XIX e início do século XX, é inevitável contextualizar o embate com as origens dos personagens envolvidos. É algo maior do que uma mera contenda entre dois indivíduos. Em um cenário político-histórico mais amplo, poderia-se comparar tal rixa com as hostilidades da Prússia que impunha a total anexação dos estados germânicos, ao mesmo tempo em que a Baviera se opôs avidamente contra essa decisão opressiva.

Ao não protestar contra os abusos físicos, a bola de neve de rancor se avoluma dando voz à uma atitude radical e também irônica para o subserviente e impassível Schöner. E mais uma vez somos alertados para o perigo de se guardar ressentimentos.

Após o assassinato o soldado raso cai em delírio. Seu senso de completude é perdido para sempre, tamanho foi o choque da atitude a que se prestou. O psicológico se deteriora gradativamente. Sente-se desconexo do mundo e desata a errar sem rumo pelos campos no interior do país, estupefato pelo que foi capaz de fazer, até alucinar pela desidratação que lhe tira a vida, como uma autopunição.

O destino similar os uniu na morte e há ironia da parte do autor em colocá-los juntos na cena final, deitados um ao lado do outro no necrotério, como se dissesse que todos somos iguais perante o fim. O óbito emancipa todas as desavenças.

Outra ironia é o desprezo do vilão por Schöner, não suportando nem olhá-lo, visto que sente ojeriza, contudo não consegue manter distância. Os próprios trejeitos que o ofendem são os mesmos a que admira. Quanto mais ressentimento, mais atração.

O capitão é representado pela severidade, ordem e disciplina impassível, enquanto Schöner é afeto a espontaneidade. Com o progresso das desavenças, as características de um são transferidas para o outro. O capitão assume um maior controle emocional e Schöner se torna perturbado, carregado de cólera.

A causa cerne da tragédia é a repressão sexual e os efeitos fatais acarretados ao indivíduo cobiçado e sobretudo ao sujeito que restringe seus sentimentos. Ao mentir para si mesmo negando a atração homossexual, a frustração converte-se em compulsão obsessiva. Esta por sua vez deteriora a capacidade de pensar do oficial, tornando-o atormentado e cruel para enfim se externar com violência incontida contra seu amado. A paixão é expressada pela dominação do outro através da submissão à autoridade militar.

Por simbolismos o autor soube intensificar muito bem tais angústias. Trabalhando a presença da cor vermelha, a manifestação de uma garganta seca e alusões à perda de consciência, Lawrence pronuncia sinais de tensão e afloramento de desejos. O momento mais climático é preparado ao leitor acrescentando gradualmente a sensação de calor incômodo.

Outra estratégia do autor é reduzir parte importante da individualização dos personagens. Eles nem ao menos são efetivamente nomeados. “Hauptmann”, sobrenome do oficial, significa “capitão”, em tradução literal do alemão. “Schöner” é o real sobrenome do jovem soldado ou uma pejoração? Pois em tradução literal quer dizer “mais belo”.

Talvez essa falta de identificação dos personagens permite ao autor aplicar-se, dar mais ênfase em outras particularidades da narrativa, como o papel significativo que o sofrimento causa na decadência de um ser.

As duas figuras polarizadas se opõem até mesmo em um nível de compreensão dos eventos. O capitão representa a consciência e o soldado a inconsciência. A mente inconsciente sem opressão vive um amor saudável e correspondido, já a mente consciente, repressiva, nunca correspondeu ao amor e não é correspondida. Contudo, a inconsciência é destrutiva quando reprimida sistematicamente pela consciência. O inconsciente mata a consciência e se auto destrói no processo.

Schöner nunca chegou a atravessar a barreira da inconsciência. Morreu ignorante ao que de fato se procedeu. Preservou-se na ingenuidade. Para ele, as atitudes de seu oficial nada passaram de pura malignidade.

Lawrence elaborou um narrador objetivo que se mantém nos limites de uma narrativa em terceira pessoa, evitando sensibilizar o leitor para o conflito interno do capitão. O tom empregado é sarcástico quando se refere às atitudes ou ao julgar o capitão. E por ser onisciente sabemos claramente o que se passa na cabeça de Hauptmann. Já a mente de Schöner permanece acobertada pelo autor. Por essa razão o final é uma surpresa. Não se pressente que a amargura conservada era tamanha.

O livro abre precedente para uma discussão filosófica do desejo represado e a sua consequência no psicológico do ser humano. O Oficial Prussiano traz uma lição importante que foge aos personagens. Somente o leitor é agraciado com esse aprendizado. Portanto cabe a ele tirar conclusões particulares se seria mais sadio rejeitar todo esse sofrimento ou abraçar a angústia. Qual escolha acarretaria na manutenção da sanidade?

13 comentários sobre “O Oficial Prussiano

  1. Parece bem interessante, mas, como mulher, me incomoda muito o autor achar que uma agressão física se compara a um estupro. Estupro é uma agressão muito maior. Entendo que é um conto antigo e que quer fazer uma certa analogia, mas achei que o ele meio que diminuiu a crueldade do ato. Nós crescemos com medo demais disso e achamos que pode acontecer a qualquer momento. Não que homens não possam sofrer isso, mas estatisticamente é bem menos. Eu, pessoalmente, tenho muito mais medo de ser estuprada do que de morrer.
    Não sei, acho que vou ter que ler mesmo pra tirar minhas conclusões. Mas acho interessante o tipo de abordagem que faz a essa repressão da sexualidade, ainda mais nessa época e com status de militar, onde mostrar virilidade é praticamente obrigatório.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Concordo que a agressão física não pode ser comparada de modo algum com estupro.
      Estupro é a forma mais vil de transgredir a dignidade de um ser humano.
      A citação ao termo foi apenas para exibir a sensação de corpo violado pela brutalidade, mas é lógico que em proporções muito menores. Talvez me faltou frisar essa parte.

      Quanto a abordagem, sim, foi algo polêmico para a época. Imagine evidenciar condutas homossexuais no exército em pleno século XIX. Ainda mais em uma das forças militares mais poderosas da época, a prussa.

      Muito obrigado pela contribuição Liv!

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  2. Você escreve muito bem, suas impressões são informativas e bem fundamentadas! Apesar disso, o livro é muito angustiante, não me interessou nesse momento, por ser um momento fragilizado, para mim, mas eu adorei a resenha, e quem sabe um dia, eu o leia.
    Inclusive, não sei se você já leu, mas me lembrou, os sentimentos ambíguos, o livro de Marguerite Duras, O Amante.
    Até mais 😊

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